gabrielbozano
Out 2026 · Política

Nada muda à toa

Muda quando a estrutura muda. E a estrutura não mudou.

Há três meses, coloquei uma frase no alto deste site: Nada muda à toa. Muda quando a estrutura muda. Escrevi pensando em pessoas, em empresas, em histórias, em tudo aquilo que a gente tenta transformar mexendo só na superfície. Não pensei em eleição.

Mas domingo à noite, vendo a apuração virar seção por seção, percebi que a frase tinha acabado de ganhar sua demonstração mais clara. Ela não era uma aposta de que algo mudaria. Era a explicação de por que nada mudaria.

No primeiro turno, parecia que o Brasil tinha virado. Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente teve cerca de 3,3 milhões de votos a menos do que no primeiro turno de 2022 e perdeu em mais de 700 cidades que havia vencido quatro anos antes. O humor do país tinha mudado.

Três semanas depois, Lula foi reeleito para o seu quarto mandato.

Quem se surpreende confunde humor com estrutura. O humor do eleitor oscila. A estrutura que decide o que esse humor consegue produzir, não. E ela foi montada, ao longo de duas décadas, para garantir exatamente o que se viu no domingo.

O Estado como máquina eleitoral

Um governo que controla o orçamento, os programas de transferência, os bancos públicos e milhares de cargos não disputa uma eleição em pé de igualdade. Disputa com a máquina ligada. Entre um turno e outro, a abstenção caiu de 21,08% para 18,98%. Mobilização dessa escala não é espontânea. Tem logística, tem rede, tem quem pague.

O pacto com o sistema político

O PT aprendeu a governar com o Centrão, com governadores, com prefeitos que dependem de verba federal para fechar as contas. Esse arranjo não tem ideologia. Tem interesse. E o interesse do sistema é manter quem já distribui.

A arbitragem judicial

Nos últimos anos, os tribunais superiores deixaram de ser árbitros para se tornarem atores. Decidiram quem podia concorrer, e o principal nome da oposição está fora do jogo. Decidiram o que podia ser dito, com a remoção de conteúdo nas redes. Decidiram o ritmo das investigações que atingem um lado e o outro. Não é preciso tocar em uma única urna para inclinar uma eleição. Basta definir o campo antes de o jogo começar.

A imprensa como engrenagem

Toda estrutura precisa de quem a narre. Boa parte da grande mídia brasileira deixou de fiscalizar o poder para depender dele: verba publicitária oficial, anúncio de estatal, patrocínio de banco público, acesso privilegiado a quem manda. Quem recebe do Estado não morde a mão que paga. No máximo, late para o lado certo.

A imprensa virou mais um elo da cadeia de transferência: o dinheiro sai do contribuinte, passa pelo governo e chega a quem produz a versão oficial dos fatos. Em troca, o escândalo de um lado ocupa a manchete por semanas; o do outro cabe numa nota de rodapé.

Tudo isso num país onde cada vez menos gente gera riqueza de verdade. Cada vez menos produzem, empreendem, exportam, inovam e pagam a conta. Cada vez mais vivem de receber: do orçamento, do contrato público, da emenda, do cargo, do benefício, da verba de publicidade. Quando a maioria depende do Estado para viver, votar contra o Estado vira um ato contra o próprio sustento.

A estrutura não precisa convencer ninguém. Basta tornar todos dependentes dela. E quem paga, minoria cada vez menor, descobre que não tem voto suficiente para mudar quem gasta.

A democracia como cenário

Chama-se de festa da democracia o que, a rigor, é um ritual de confirmação. O eleitor vai às urnas, escolhe, e o resultado sai igual ao de sempre. Há eleição, há apuração, há discurso de vitória com a palavra “democracia” em letras grandes. Só não há alternância.

Uma democracia em que o poder nunca troca de mãos de verdade não precisa de fraude. Precisa apenas de regras que favoreçam quem já está dentro.

O voto vira a formalidade que dá legitimidade ao que a estrutura já decidiu. É a continuidade de um projeto de poder com selo de aprovação popular. Quem distribui segue distribuindo; quem é protegido segue protegido. Os privilégios não são ameaçados pela eleição. São renovados por ela, a cada quatro anos, com a nossa assinatura.

Uma oposição sem projeto de estrutura

Do outro lado, trocou-se o candidato, não a lógica. A oposição continua dependendo de um sobrenome, de um líder, de uma onda. Onda não derruba estrutura. Onda quebra nela.

Sem mexer nas vigas

Por isso o resultado de domingo não é um acidente. É o funcionamento normal de um sistema que, enquanto não for reformado nas regras de financiamento, no tamanho da máquina pública, nos limites do Judiciário, na forma de fazer alianças e na relação entre governo e imprensa, tende a reproduzir a si mesmo. Pode-se trocar o rosto na urna dez vezes. Sem mexer nas vigas, a casa continua de pé, com os mesmos moradores.

E daqui a quatro anos, com todos (menos eles) sobrevivendo sufocados, um país inteiro enxugando gelo, sem criar nada, sem relevância política, tecnológica ou moral, quem vai ocupar a estrutura para continuar se perpetuando no poder? Quem vai sustentar a corrupção, sugando nossas riquezas e nosso futuro, com a chancela dos votos comprados e do discurso de soberania, do amor que venceu o ódio, e de que a democracia foi defendida? Serão os mesmos.

Porque nada muda à toa.