Antes que eu pudesse dar meia volta, já estava em cima da entrada do edifício Itahy. Desconcentrado pelos pensamentos perdidos, tentei não olhar para o alto, onde sabia, estava sendo fuzilado pelos olhos de majólica verde da índia-sereia.
Sempre que saía da casa de Patrícia e passava pelo edifício, caminhando em direção à praia, perdia alguns minutos de bate-papo com o objeto decorativo. Esse era o estranho talento que tinha. E não era somente com a escultura da índia-sereia que conseguia conversar, mas com vários outros pedaços da Cidade.
Durante minha infância em Santa Teresa, o máximo que fazia era ouvir o cochicho dos paralelepípedos da Almirante Alexandrino, e conversar com o Grifo de um prédio vizinho que sempre me saudava quando passava indo para a escola. Mas à medida que fui ficando mais velho, conhecendo as quadras, montanhas e ladeiras da Cidade, ela começou a abrir a boca. Naquela noite, após ter brigado com Patrícia, foi o canto macio de Itahy que me chamou.
— Olá Paulo, você não me parece muito bem — disse ela.
Mantive a cabeça baixa, acelerando o passo em direção à praia onde pretendia curar um pouco da mágoa, aspirando a maresia e caminhando pelas imagens sinuosas da calçada. Mas parei, fosse pelo encanto da sereia, fosse pela vontade de conversar com alguém. Sentei no canto da escada, fora da visão do porteiro que já me tomava por louco.
— Eu e Patrícia brigamos — disse.
— Eu sei, só não entendi por quê?
Conversava com Itahy sem olhar para ela, mas sabia que seus cabelos policromados balançavam numa corrente invisível.
— Falta paixão.
— Sempre falta alguma coisa — disse debochada.
— O que você entende disso? — desabafei.
— Mais do que você imagina. Sabe quantos casais já passaram por esse portal? Não seja infantil. Patrícia é perfeita para você.
— Claro, foram vocês que a escolheram para mim.
— Não seja ingrato, você que pediu: "Me encontrem a mulher perfeita."
Era isso, levantei-me. Já era hora de voltar pro meu apartamento na silenciosa Barra da Tijuca. Pelo menos lá os prédios eram calados. Durante um bate-papo com o Theatro Municipal, descobri que são as edificações mais antigas que gostam de conversar com gente viva. Os prédios novos não se interessam, têm pouco o que contar além de brigas condominiais. Mas Itahy não deixou a conversa morrer.
— Vou encontrar a mulher que você considera perfeita. Sofia, não é mesmo? Cabelos castanhos, olhos verdes.
Fiquei pasmo por Itahy saber tanto sobre meus desejos íntimos. Vendo minha fisionomia, justificou.
— As paredes têm ouvidos, você sabe muito bem disso.
— E onde vou encontrar essa mulher perfeita?
— Assim que descobrir mando lhe avisar — e se despediu com um aceno semi-nu.
Retribui com um sorriso forçado e fui embora decidido a caminhar um pouco pelo calçadão. Os grandes holofotes que iluminavam a praia esparramavam uma luz difusa pela fina umidade da noite.
Foi então que logo depois da Francisco Sá, tomei um susto pelo movimento peculiar da fachada sugestiva do Edifício Ypiranga. Suas curvas sinuosas que lhe deram o apelido de Mae West abriram e fechavam como lábios verticais.
— Itahy lhe mandou um recado. Esteja amanhã às 9:00 horas da manhã em frente aos cavalos-marinhos do Palácio Gustavo Capanema.
Acordei no dia seguinte com meu prédio balançando. Ele era calado, mas não estava morto. Enquanto seguia de ônibus pelo trajeto que ia da Barra até o Centro, tentei esvaziar a mente, sentindo saudades de Patrícia.
A cidade parecia irritada comigo. O Elevado do Joá sibilou quando passei por dentro de sua carcaça de concreto e por um instante, achei que seria jogado nas pedras lá de baixo. Só relaxei um pouco ao passar pela Rocinha, escutando o bate-papo ritmado das alvenarias nuas e a métrica desconexa das ladeiras sem fim. De resto, as quadras da Zona Sul permaneciam calmas naquela manhã chuvosa, o Pinel discutia alguma coisa com Botafogo, o Aterro falava esticado, respondido por silvos agudos vindo do Aeroporto Santos Dumont.
Cheguei ao Centro da Cidade, recebido pela sinfonia das calçadas encharcadas. Tive certeza que chegaria atrasado, que meu ônibus não conseguiria atravessar a parede de chuvas de março que surgiu em São Conrado, mas por mais estranho que pareça, não pegou nenhum sinal fechado.
Consegui saltar próximo ao Palácio Capanema e corri em direção ao painel com motivos oceânicos, vendo os cavalos-marinhos agitados, rodopiando através dos azulejos. Ao me verem, numa organização militar, formaram uma seta apontando uma jovem que tentava atravessar a rua.
Ela era perfeita, linda, exatamente como sempre sonhei. Os cabelos castanhos claros, ondulados, emolduravam um rosto com dois olhos verdes brilhantes.
Sofia passou por mim sem me ver. Deveria ser esse seu nome de acordo com a perfeição proposta pela índia-sereia, mas não tive coragem de dizê-lo alto, de chamá-la para comprovar sua existência. Ela parou a alguns metros de mim. Fez sinal para um táxi e partiu. Eu permanecia estático enquanto o táxi passava, parando poucos metros adiante, atrás de uma fila de carros que esperava o sinal verde. Senti no chão que a cidade não estava satisfeita. O piso debaixo dos meus pés pulsou, querendo me empurrar para a rua. Eu podia ouvir baixinho, através do barulho da chuva, o Palácio Capanema me mandando ir atrás dela, com aquele sotaque francês de quem se considerava mais Le Corbusiano do que outra coisa. E o sinal não abria e a chuva aumentava. Aproximei-me do final da calçada, anunciando uma possível caminhada, mas parei. Uma sinfonia de buzinas tocava. Alguns carros da frente tentavam furar o bloqueio do sinal vermelho, movendo aos poucos a fila, levando para mais longe o táxi com Sofia. Foi quando a rua começou a alagar. Uma torrente de água foi cuspida pelos bueiros, que para impedir sua volta, compuseram um balé de barras fechando-se como dormideiras tocadas por dedos invisíveis. A água subiu tão rápido que os pneus sumiram de vista e os carros não mais andavam e sim boiavam. A porta do táxi foi aberta. Vi a face assustada de Sofia, decidindo se tentava chegar na segurança seca da calçada. Resolvi agir.
No momento seguinte, eu caminhava pela rua como Moisés. A cada passo que eu dava, surgia um calombo na rua como um banco de areia asfaltado, escoando a água para os lados. Ao chegar na porta do carro, estendi minha mão e puxei Sofia com força de encontro ao meu corpo molhado. A abracei pela cintura, e percebendo um sorriso de estranhamento, dei-lhe um beijo. Alguns segundos depois, quando liberei a pressão de meus lábios sobre os dela, sua voz doce proferiu uma frase que jamais esquecerei.
— Quem você pensa que é? Meu marido não vai gostar nada disso.
Itahy riu durante horas enquanto lhe contava, ainda úmido, sobre meu incidente matinal. Sofia era perfeita para mim, mas eu não era perfeito para Sofia. Ela gostava de homens esportistas, altos, olhos e cabelos claros, exatamente como seu marido, jogador de vôlei pelo qual é completamente apaixonada e mãe de um lindo bebê.
— E agora Itahy, o que faço?
— Ouça o que eu digo, paixão não tem nada a ver com amor. Paixão dura um beijo, amor dura para sempre. Você teve seu beijo, agora é hora de descobrir quem você realmente ama. Vá ao Corcovado amanhã de manhã.
Apesar da chuva de sexta-feira, sábado estava um dia lindo e ensolarado. Acabei seguindo o conselho de Itahy e fui ao Corcovado.
Quando cheguei no topo da escadaria, ouvi uma voz familiar explicando em inglês as belezas naturais da cidade.
O Corcovado foi onde nos encontramos pela primeira vez, não por acaso, mas depois que o Cristo Redentor me chamou com um psiu e apontou a morena guiando um grupo de alemães.
Desta vez não precisei da ajuda de asfaltos movediços, bueiros orgânicos ou estátuas gigantes apontando. A saudade e o amor que sentia eram reais. Aproximei-me do grupo e abordei Patrícia.
— Almoça comigo mais tarde?
Ela me olhou sem susto, como se já estivesse me esperando. Sorriu e fez que sim com a cabeça. Continuou a visitação enquanto eu me debruçava no parapeito.
Agradeci à Cidade, que me retribuiu com uma Baía da Guanabara sorridente. Virei-me, olhando para o alto.
— Obrigado.
O Cristo Redentor me piscou um olho e embalado pela melodia doce da Índia-sereia, continuou abençoando a Cidade Maravilhosa.