O universo silencioso de Camus e a conspiração silenciosa do inconsciente coletivo
Quando li O Estrangeiro pela primeira vez, o que me perturbou não foi Meursault. Foi o sol. Um homem mata outro homem numa praia e o narrador nos diz que o sol estava nos seus olhos. Camus não está sendo irônico. Está sendo preciso. O universo não tem opinião sobre o que acabou de acontecer. Não pune, não absolve, não desvia a luz para iluminar o culpado. O sol estava lá antes do tiro e continuou lá depois. Essa é a tese: o mundo é radicalmente indiferente à existência humana, e o absurdo nasce exatamente desse silêncio — do homem que grita por sentido num universo que não tem ouvidos.
Cresci numa tradição diferente. Não religiosa no sentido estrito, mas saturada de uma crença difusa e persistente de que o universo responde. Que sinais existem. Que coincidências carregam peso. Essa crença tem muitos nomes — destino, providência, sincronicidade — e uma versão popular que a banaliza: a ideia de que o universo conspira a nosso favor, que basta desejar com intensidade suficiente para que as coisas se organizem ao redor do desejo. É uma ideia confortável e, no fundo, tão egocêntrica quanto o niilismo que pretende combater. Substitui o silêncio por um eco que só repete o que queremos ouvir.
Mas há uma terceira possibilidade, e é ela que me interessa como leitor e como autor.
O universo pode conspirar sem ter intenção. Pode estar cheio de sentido sem ser moral. Os mártires existiram, os santos sofreram, os rios transbordaram, as estações se repetem — tudo isso aconteceu antes de nós e continuará depois. Essa densidade simbólica não foi organizada para nos salvar nem para nos destruir. Ela simplesmente está. E nós, ao atravessarmos o tempo, somos empurrados por ela como barcos num rio que não escolheu nossa direção.
É nesse espaço que Camus e eu divergimos. Não acredito no silêncio absoluto. Acredito num ruído de fundo que nenhum personagem pediu e nenhum personagem controla — o murmúrio do inconsciente coletivo, da memória histórica, dos mortos que ainda pesam sobre os vivos. Esse ruído conspira. Mas conspirar não é o mesmo que proteger. O rio que empurra o barco pode empurrá-lo contra as pedras com a mesma indiferença com que o leva ao mar aberto.
Meursault seria diferente se soubesse que havia mártires enterrados naquela praia? Talvez não. A grandeza de Camus é que seu personagem é impermeável ao contexto — e isso é uma escolha filosófica, não uma falha narrativa. O absurdo exige essa impermeabilidade. Mas me pergunto o que acontece com os personagens que são permeáveis — que sentem o peso do dia, a memória do lugar, o sussurro do coletivo — e mesmo assim fazem as escolhas erradas. Não porque o universo os abandonou. Mas porque ouviram e não quiseram entender.
Tudo conspira. E ainda assim, nada salva.
Essa talvez seja a única frase honesta sobre a condição humana que consigo escrever depois de ter lido Camus — e de ter tentado, por anos, escrever personagens que vivem dentro dessa tensão sem que eu precise resolvê-la por eles.